Sexta-feira, Janeiro 2

happy new year


Domingo, Dezembro 7

in memoriam...


Acredito que envelhecemos sempre que perdemos alguém, como se fossemos um puzzle e cada peça perdida fosse uma pessoa que amamos e um ano menos da nossa vida.
Uma perda será menos uma arfada de ar que respiramos, menos um latido de um coração ou um êmbolo numa qualquer artéria que outrora havia de alimentar o nosso corpo, e que agora deixa secar, pouco a pouco. Deste modo, devimos pele e osso. Depois osso. E pó. Terra.

Sábado, Outubro 18

You can have it...


Preparo o meu coração para a partida. Coso-lhe as artérias e esvazio-o de sangue. Depois hei-de enchê-lo de memórias, as suficientes para me alimentar mil anos. Entretanto, arrancarei os mil vasos e veias do meu corpo e deixarei a cada um de vós, emprestado, um pedaço para que não me esqueçais. Pedir-vos-ei que o guardeis numa caixa, talvez sob a almofada; para que cada noite lembreis alguns dos nossos bons momentos vividos. Proibidas serão as lágrimas de tristeza. Devemos sempre alegrar-nos por nos termos conhecido e por, ainda que na distância, podermos alimentar os laços que nos unem. A todos vós, obrigado.

Segunda-feira, Setembro 8

Um sem outro eram parte

Houve há trinta anos uma mãe que gerou dois filhos. Porque a ambos gerou em simultâneo, deu-lhes a cada meio corpo, com o seu meio coração e dividiu-se em cuidados. Como parte de um todo, cada qual havia de sentir de forma complementar, completando-se entre si em sentimentos, emoções, e mesmo em sentidos. O que tinha olhos, não ouvia. O que tacteava o mundo era mudo. Um sem outro eram parte, ambos eram todo.

Quinta-feira, Agosto 7

«Imagens que passais na retina dos meus olhos»

Talvez de ora em diante veja tudo de outra forma. Talvez, neste preciso momento, entenda Camilo Pessanha e esse desepero de ver passar imagens sem que as pudesse fixar. Quero agora, a todo o momento, fixar rostos, gestos, ruídos, prédios e fumos, cheiros, montanhas, lagos e rios. Quero engolir tudo para poder alimentar-me do outro lado do mundo. Quero fantasmas e recordações, quero levar comigo o meu mundo.
Quero ser memória!

Domingo, Julho 13

Com um café entre Graça e Burmester


Chego e sento-me, como faço em qualquer café que me agrade e que me sirva para reflectir sobre as minhas vidas. O moço de avental há-de trazer-me o café gelado de sempre. Bebido, hei-de escrever o que quer que seja. Hoje inclino-me para a arte de Graça Morais ou mesmo para a de Gerardo Burmester. Ambas me fascinam. A primeira porque a sinto quase kafkiana pelas suas metamorfoses e como olha para o mundo humano a devir animal. A segunda porque exige que olhemos para ela sem grandes delírios. Quer que nos livremos de tudo o que está lá fora e que, por momentos, a sintamos, ou melhor, nos sintamos dentro dela. Viro a página, desvio o olhar e aprecio as pequenas árvores que um dia hão-de dar sombra àquela fonte, os traços rectos da construção que hoje cheiram a fresco e amanhã alimentarão eras e bichos. Amanhã. Amanhã é segunda. As portas estarão fechadas. Vazios de gentes, os corredores darão descanso aos vidros que desenham retratos de quem os olha. Fecho o caderno. Arrumo-o. A caneta, essa empresto-a ao corrector de trabalhos. O outro eu. A minha outra vida.

Quarta-feira, Junho 11

da paixão de há séculos ou do devir amor

Hoje amo-te. Amanhã direi que não sei, não porque não sinta que te ame mais ainda, mas porque quero tão-somente ser mais verdadeiro. Alimento-me de incertezas. Sinto-te dentro, vísceras e carne entranhadas. És por dentro também, e do meu sangue. Ontem não pensei amar-te tanto. Hoje, na tua ausência, incompleto-me.

Goethe ou as conversas com Werther

Conversei com Werther. Há-de ser o eterno romântico perdido em bucólicas tardes. Tive-o numa qualquer manhã de verão há uns bons dez anos, mas talvez não me tivesse agradado a sua conversa. Abandonei-o então. Depois, até senti a falta dele.
Uma noite destas, de visita a uma feira do livro encontrada ao acaso em cima da mesa de um café teatro que frequento com um amigo de há séculos, reencontrei-o. Ontem perdemo-nos em conversas de madrugadas. E hoje. Amanhã talvez.

Terça-feira, Junho 10

pede-me

Às vezes ficamo-nos pelos gestos, pedimos com os olhares, com as mãos, até com a pele. Emudecemos. Não porque dispensemos palavras, simplesmente as esgotamos com conversas do alheio. Dizemos do tempo, das casas... do que não é tão nosso. Gastamos palavras.
(inc)

Quarta-feira, Maio 28

...da incerteza grafémica


Estou a ler o acordo ortográfico. Até "ontem" tinha-o ignorado, simplesmente por falta de tempo (e, admito, também alguma despreocupação). Mas hoje começo a não dormir porque esta incerteza grafémica que aí vem não me permite ter a certeza de que a minha correcção ortográfica não é já anacrónica.

Na minha ignorância, sentia-me capaz de argumentar que, afinal, este acordo havia de abrir-nos mais uma janela para além-mar... mas, em conversa com um amigo, sempre informado e atento ao mundo, decidi analisar detalhadamente o acordo, mais não fosse para poder opinar. E aqui estou eu, agora a comungar com a perspectiva do desastre do Vasco, publicada pela Alêtheia Editores; e também com o António Gabriel.




Segunda-feira, Maio 19

parto à luz do dia

Quando me perguntam se sou o que escrevo, não sei responder. É certo que brotam de mim as palavras, sinto-as à flor da pele, às vezes; outras há que, subcutâneas, me obrigam a desgarrar-me. São minhas, mais não seja porque fui eu que as escrevi, pari-as. Trouxe-as à luz do dia e da noite para dar algum sentido ao caos que sou. Não sei se me diga o romântico que escreve como dita o coração ou se, entre o que penso e o que escrevo, há um filtro que me coa os sentimentos, esse que há-de acrescentar ou suprimir palavras.


Então, parto...

Quarta-feira, Maio 14

...sinestesias


Olho à minha volta e, da mesma forma que um matemático há-de analisar a realidade com os seus óculos, também eu verei o que me rodeia com as minhas lentes de aprendiz. Não sou original no que escrevo - Kristeva e Bachtin hão-de dar-me razão - limito-me tão somente a plagiar meia centena de homens que viveram e escreveram antes de mim. Quem leu Nava há-de compreender-me melhor, quem não leu ... estou certo que não tardará a dirigir-se a uma qualquer livraria para pedir uma antologia azul da D. Quixote. Dizia ele, o Luís Miguel, que há tantos mundos quantas as línguas. É claro que no seu discurso encontrareis a poesia que aqui não existe. Sabereis então, também ao folhear as suas palavras, que foi o poeta que nos cantou mais por dentro, onde somos vísceras e sangue. Viu, sentiu, cheirou, ouviu, tomou o gosto de cada coisa com todos os sentidos. Curou-se da cegueira epidémica. Essa que nos limitou a ver com os olhos, a sentir com a pele, a cheirar com o nariz, a ouvir com os ouvidos e a tomar gosto com o paladar. Depois inventamos sinestesias.

Domingo, Maio 4

do sol e da lua... e de um sentido samaraguiano


Sento-me numa varanda que dá para o mundo e peço à Lenox para me cantar alguma canção. Olho o céu e, ao longe, as nuvens negras que deixam o meu sol brilhar. Lembro-me de uma Blimunda que roubava vontades que alimentariam máquinas voadoras, de um Baltasar coto e de um Bartolomeu louco... e pego num memorial de um convento, o de Mafra, o do Saramago que há-de dizer que para cada sol há-de haver uma lua, e só porque um existe, o outro há-de ter sentido...

Sábado, Maio 3

Passeio entre paredes... ou a pele

Hoje dediquei-me a passear, como esse Garrett, hoje esquecido, que dizia que num quarto também se passeava. Ele via uma nesga do Tejo.... eu, entre guindastes e antenas, a coroa de uma qualquer serra galega ou leonesa ou qualquer coisa de intermédio.
Decido-me então a viajar entre Cebolais de Cima e Sarilhos Grandes, montado num burro mirandês preto de alforges verdes. Passo por Cansado, Freixo, Barulho, Pai Torto, Chão de Maçãs, Vale da Pinta e retonho-me Às Dez... depois passeio-me por dentro. Gasto já pelo tempo que passa e pelas memórias de tempos idos. Tudo é passado. O presente é o que escrevo. O futuro, esse hoje é mais incerto, tal como o dia de sol a haver que foi engano.

Terça-feira, Abril 8

escrevo com o coração


Estes dias tenho andado em processo de divórcio litigioso com o meu leito. Não tem sido tão difícil como previa, até porque me convenci de que quanto mais cedo sair de um estado amnésico - os demais chamam-lhe sono - mais aprendo. E surpreendo-me a cada momento. Ou melhor, surpreendem-me. Hoje ouvi uma das expressões mais belas de sempre, tenho pena não ser minha - até sinto um pouco de inveja, confesso - mas não me atrevi a dizê-la minha, até porque nutro pela autora um carinho especial. É uma rapariga como qualquer outra, tem 39 anos que a maltrataram e, por isso, hoje é mais seca... não seca de carnes, pelo contrário. Seca a olhar os outros. Pariu duas vezes. Serviu de armazém a espermas bêbados. Agora, serve de armazém a más memórias. E escreve-as. Sãos os filhos que ainda lhe deixam correr sangue nas veias. São o coração. Dir-me-á o leitor que sou cru. Relato uma verdade e quero que cada um de vós possa imaginar o que uma mulher destas sentiu. Foi coisa.


Estará o leitor a passear os olhos já impacientes por estas linhas... depois, começará a pensar em aniquilar-me dos favoritos - caso lá tenha ido parar, ou então dirá que o acaso foi infeliz... mas, leitor, podes "saltar" linhas... li algures que é um dos teus direitos...


... "eu não escrevo com as mãos, sou assim, escrevo com o coração"... é esta a frase. Escrevo-a enquanto a autora planta as batatas lá do quintal, com as tais mãos que são coração.

Terça-feira, Abril 1

...


Escasso em palavras, hoje sou emoções. Sou alegria porque alguém chega, sou tristeza porque alguém parte, sou medo porque amo e sou amor porque sinto.

Domingo, Novembro 18

Reescrevo...


Numa conversa entretida de serão de sábado que se prolonga pela madrugada, a música apareceu brasileira e, hoje, voltei a ler a Adriana. Tinha-a esquecida numa prateleira, dentro de um livro, cancioneiro minimalista lúdico, que abrira duas ou três vezes. É preciso lê-la, enquanto a ouvimos. Senti-la sem distracções. Diz-me um sábio amigo que é música que nos exige ser todo sentidos. Eu contrario-me e, apregado a uma correcção para ontem, respiro ares de uma eclética de Porto Alegre e desejo-me numa Almedina com mesa farta em Nava, sanduíche de atum e batido de manga.

Quarta-feira, Novembro 7

Nesta manhã [eu] recomeço o mundo...


Escrevo. Mas antes deixei-me levar em viagem e fui ulisses ancorado em ítaca. Comigo viajaram um frederico e uma sofia. Ele dizia que outrora soubera ver o mar nas palavras que a mão dela desenhara. E eu, entre ambos, fui esse viajante sem retorno marcado.



Segunda-feira, Março 19

hoje sou sombra


Escrevo entre sombras, onde as memórias são pedras e onde o caminho se faz lama. Disfarço-me , depois, em sorrisos e choro por dentro. Salgam-me as lágrimas as entranhas e secam-me. As palavras. Os lábios. Os olhos. As mãos. Os gestos. Hoje sou sombra.

Segunda-feira, Janeiro 15

hare krishna

É emocionante quando descobrimos em simultâneo duas formas específicas de arte que nos despertam paixões. Não vou estender-me em definições de paixão, é suficientemente complexo e pode resultar num discurso denso e pouco apetecível. Encare o leitor este post como uma sugestão de um filme que pode ver e de um livro que pode ler.
O livro é da autoria de Frederico Lourenço: A máquina do arcanjo, uma espécie de autobiografia mais ou menos ficcionada, que agradará aos leitores de Clarice Lispector («Eu próprio, se calhar, era mais árvore do que gente...») e a todos aqueles que apreciam nomes que nos elevam ao mundo da Antiguidade Clássica e da música erudita. Evocam-me algumas das suas palavras um nome que recordo com afecto: Carlos Mendes de Sousa, sumidade intelectual em domínios de literaturas brasileiras e com quem aprendi a gostar de Machado de Assis.
Não menos envolvente é o filme As águas. Gostaria de precisar o nome do realizador; mas, não sendo possível, dir-vos-ei que é um filme baseado numa realidade cruel que afecta ainda algumas viúvas na Índia. Sob roupagens de um religiosismo cego, escondem-se interesses económicos que ignoram os direitos humanos da mulher.