sábado, janeiro 2

3.[o segredo]

[o segredo]

emudecera para o mundo à nascença. o grito esperado nunca aconteceu. o médico, contava-lhe a mãe sempre que renascia, não esperava dele senão a morte. pariu-o logo depois da meia-noite: pouco mais de dois quilos de ossos prematuros, arrancados de um ventre quase seco a ferros. depois veio o suspiro. ainda hoje se sentia assim, quase morto. deus privara-o do verbo para o arredar do mundo, pensava. não lhe saía pela boca absolutamente nada. era uma espécie de buraco negro sem fundo: absorvia o mundo e, já do lado de dentro, era o seu segredo, e de deus. não podia dizer nada, alimentava-se do que via e sentia, mas sempre em silêncio. sentiam-no quando pegava nos talheres e, às vezes, quando pousava de forma desajeitada o copo na mesa. de resto, andava pela casa como se fosse um fantasma. existia quando o chamavam e, na rua, porque não lhe esperavam qualquer resposta, olhavam-no apenas. tristes, pensava. enquanto ele guardava tudo para si, os demais pareciam-lhe tão vazios. passavam pelas coisas de modo aligeirado, com pressa de as sentir e ainda com mais pressa de dizer que as sentiam. e, porque entre o sentir  e o dizer o tempo era tão curto, tudo lhe parecia mentira. talvez fossem as palavras que os esvaziavam. dizê-las ou escrevê-las. talvez tudo o que se dissesse e escrevesse fosse mentira, e a verdade fosse muda, como o seu segredo. 


terça-feira, dezembro 29

2.[o silêncio]

[o silêncio]


inquietava-a aquele silêncio. sempre se vira rodeada de pessoas e, agora, ao querer afastar-se de tudo e de todos, sentia-se a mulher mais triste do mundo. talvez fosse a tristeza o início deste seu novo mundo. talvez, à semelhança de todos os escritores que são dados à solidão para que se lhe arranque dos dedos a alma das coisas, precisasse desse momento de tristeza para encontrar a sua própria alma. sentia-se demasiado só-corpo. precisava conseguir ver-se além do espelho que a ajudava a maquilhar-se cada manhã. queria ser autêntica e desmascarada, para si. obrigar-se-ia a pensar-se, a si e ao mundo que deixava para trás, e a encontrar-se nesse outro eu que era desconhecido e que lhe gerava um certo desconforto. ser eu desconcerta-me. tal como o sentar-me numa cadeira incómoda. como se procurasse uma postura mais confortável e anatomicamente mais correta, era a oportunidade para ser outra, mais cómoda para si - mesmo não sabendo quem era naquele exato momento. era mulher dada a coisas exatas, dizia. hei-de sempre recortar-me de tudo o que não me faz falta e aflige, e fujo, colo-me noutra folha e viro a página. despropósitos, pensava quem a ouvia a querer desprender-se assim de tudo o que era: há roupas que vestimos tantas vezes que, depois de um tempo, hão-de substituir-nos a pele. e, a querer arrancá-la, havemos de mostrar as nossas entranhas. e é algo tão feio de ser ver. fingiu não ouvir e aproveitou para encher o copo um pouco mais. mais vinho? alguém quer mais vinho? sentia-se mrs dalloway numa das suas festas. a festa da despedida. e lá fora era inverno.


domingo, dezembro 27

1.[próxima estação: o inverno]

[o inverno]


olhava para o relógio,  sempre a pensar que a distância entre os ponteiros havia de ser proporcional aos muitos quilómetros que o separavam do seu destino.  por mais que se esforçasse em escondê-lo dos seus olhos, procurando entretê-los com as paisagens projetadas nas janelas do comboio, poucos minutos depois estava a olhá-lo disfarçadamente, como se pudesse fazê-lo às escondidas de si próprio. sentia desdobrar-se, às vezes. um dos seus passatempos preferidos era imaginar-se o outro, pensar-se noutro espaço, noutro tempo, como se pudesse geminar-se com outro espaço e outro tempo. não sabia ao certo, mas havia dias em que o sentir-se anacrónico era doença. sentia que o sedentarismo mental e social à sua volta, e que o perturbava, lhe entrava nas ossadas como a humidade de inverno que pode virar pneumonia. talvez fosse essa a explicação para as suas viagens: se não podia meter-se num carro ou num avião, um barco que fosse, teria de adentrar-se por um livro. era mesmo uma questão de saúde, viajar. pensar que, ultimamente, sempre que se falava de saúde, haviam de referir um mal-estar físico, uma dor qualquer no corpo que tolhe um movimento, mas esqueciam-se que havia uma saúde mental e social, descuidada. essa era uma aprendizagem antiga, ou não o tivesse o professor de saúde de nono ano obrigado a decorar a definição de saúde como o bem-estar biopsicossocial. na altura parecera-lhe uma definição pouco adequada, até porque a mãe só o acompanhava ao centro de saúde quando uma virose resistia às mezinhas caseiras e para as análises de rotina, sempre anunciadas de véspera, não fosse o sangue acusar comportamentos menos saudáveis. anos mais tarde, talvez uns dois ou três, ao obrigar-se a compreender aquela definição que parecia surgir-lhe sempre que via ou ouvia a palavra saúde, pareceu-lhe ter encontrado ali o lema para uma vida quase eterna e sem maleitas. cuidar do seu corpo, capaz de pegar num livro que fosse mais pesado, para, depois, poder passear-se entre novas pessoas. inquietou-se alguém ao seu lado. próxima estação, anunciava, é o inverno. e o relógio coincidia os três ponteiros.  

quarta-feira, abril 9

regressos

volto sempre aos lugares, quase sempre para descansar de todos os outros. aproximo-me sempre a medo, quase angustiado, ao pensar que tudo poderia ter mudado. e mudando, perco-me.

sábado, fevereiro 15

das palavras ao ser

perdemo-nos facilmente do corpo e de tudo o que somos, quando deixamos de ser palavras. há de perder-se no tempo cada momento que não soubermos dizer. digo noite e ela existe. não fosse nomeada ou, simplesmente, não soubesse eu fazê-lo e deixaria de existir.

existimos porque ouvimos alguém dizer-nos. o pai e a mãe, ou mesmo o irmão mais velho, inventaram-nos. inventaram-nos com palavras que nos contaram e, porque somos também ouvidos, inscrevemo-las lá dentro: as palavras.

fui o que quiseram que fosse (e a minha memória virou pedra). fui sonhado e dito. fui e sou palavras. e hei de ser o que de e sobre mim ouvirem e disserem.


terça-feira, janeiro 14

da saudade ou da arca que somos...

hoje senti saudades. saudades do que fui e de algumas pessoas que foram comigo. recordo-as frequentemente, mas em silêncio. aconchego-me muitas noites com estas recordações. e surgem as saudades. há dias em que cada coisa que vemos há de ser uma mão invisível que vai à nossa velha arca buscar um momento vivido, instantâneo, que, muitas vezes, por não ser invocado por nada ao alcance dos nossos sentidos, até àquele momento, perdeu-se dentro de nós. a nossa felicidade há de ser prisioneira eterna de tudo o que decidirmos guardar. e creio que é nesse exato momento que construímos a palavra saudade. nesse ato de sermos por dentro passado. sempre.






segunda-feira, dezembro 30

do sentir dos dias ou feliz ano novo

renasceria com o ano novo, fizera essa promessa. sentia cada ano como uma nova pele que lhe permitiria recolher o mundo de outra forma. não era mais o mesmo: ele e o mundo. diziam que era mais sábio nas palavras e nos gestos. diziam também que mais experiente. largava-se da alma e fazia-se só corpo e por dentro o vazio que receberia o início, o durante e o fim de cada um dos trezentos e sessenta e cinco dias do novo ano. era assim, previa-se a si e à sua fome do mundo para esburacar-se e ganhar sítio adentro. tocariam as doze badaladas e, em cima de uma cadeira, engoliria doze uvas passas de desejos a cumprir. secretos para que pudessem virar destino. silêncio a consenti-los. sentidos.



domingo, dezembro 22

postal de natal


Sentou-se para escrever um postal de natal. pegou na caneta e, antes de desenhar qualquer letra, quase como se tratasse de um prelúdio, esboçou um breve sorriso. lembranças de infância entorpeceram-lhe os sentidos. manhãs frias de inverno entretidas com risos de irmãos, de sobrinhos e de primos, ofereciam-lhes o musgo aveludado que haviam de carregar no carrinho de mão até casa para acomodar o presépio e servir de tapete à árvore de natal. gastavam assim um dia, a construir um mundo… aquele mundo, que cabia num hall de entrada de tão minúsculo que era. perfeito. pretérito. pretérito que, de tão perfeito, findara. como se apenas o imperfeito fosse inacabado e se pudesse prolongar no tempo. olhou pela janela. o céu escurecera mais cedo. escolhera para os amigos o dia mais pequeno do ano. amigo imperfeito. cantarolou, enquanto ouvia uma musiquinha de natal, seguiu-se-lhe um suspiro grave que lhe esvaziou a alma e escreveu 22 de dezembro. 




quarta-feira, dezembro 11

do nascimento ou da morte

Ontem nasceu clarice, dia 10 de dezembro. no dia anterior, morreu. quem a leu e lê, sabe que a escritora é antiga, absoluta: ressuscita-nos enquanto lemos e experimentamos a miséria das suas personagens que, já inicialmente, anunciam uma morte, se não física, para o mundo. vão morrendo, aos poucos. retirantes, primeiro, corroem-se-lhes as entranhas, analfabetas e incapazes de se darem ao mundo - são silêncio por fora - porque parcas são as palavras e insuficientes para que alguém as ouça e entenda. só o leitor. esse, sim. invade-as, reencarna-as e num instante, epifânico, transforma-se nessa quase gente. ao ler, é. clarice foi assim, antes de nascer já havia morrido, como as suas personagens. entristecia por dentro e, ao mesmo tempo, definhava, escurecia. era letra preta em papel branco. morte e vida. 

ontem, escureceu. hoje é noite, chuva  e vento lá fora. escureço também e penso que a natureza recorda clarice,  como eu, porque entristeceu e ainda chora entre soluços. cá dentro ouço-a, a noite, macabéa sem (a hora da) estrelas.

sexta-feira, abril 5

periferias...

são momentos raros, estes que nos proporcionam encontros adiados. são raras as vezes em que nos espelhamos nas opiniões dos outros. estes dias têm sido assim: sentei-me com o café e o copo de cerveja que só existiam em emails a recordar a nostalgia  de um tarasca ou avante galegos. voltámos atrás no tempo e esquecemos as fronteiras que nos dizem que falamos línguas diferentes. reconstruímos a história e inventámos o condado que está na origem da nossa irmandade. fomos livros e autores. as pessoas entravam e saíam, passeavam. E nós, periféricos, como sempre, ao mundo, folheávamos livros...
mas, porque os relógios nos compram o tempo, lembram-nos os compromissos e apressam as nossas vidas, precipitam, também, as despedidas. 

sábado, março 2


Não, não tenho dez cêntimos, senhor, lamento. Eu também, respondeu prontamente, virando costas e a arrastar-se para o passeio. Mas, sentindo-se obrigado a explicar o que fizera, aproximou-se do carro novamente e, a modo de segredo, disse que estava a fazer uma experiência com as pessoas, a medir-lhes a boa vontade. Tenha um bom dia, vou continuar com a minha experiência. E boa viagem! O semáforo pôs-lhe o pé no acelerador e, no retrovisor, pôde ainda ver o mendigo a aproximar-se de alguém. Nunca saberia se encontraria boas vontades, as pessoas fizeram-se cinzentas e, nos seus olhos,  não se via mais que opacidade dos dias nublados. O brilho dos dias de sol desaparecera.


domingo, fevereiro 10

Adormecia do mundo todas as noites!

Adormecia do mundo todas as noites! Quase como um ritual, havia de deitar-se e folhear um livro para que as palavras lhe servissem de sustento ao corpo. A luz era sempre ténue para que os seus olhos verdes, quase escondidos pelas pupilas bastante dilatadas, pudessem devorar mais matéria, feitos buracos negros que deformavam o espaço e o tempo e tudo o que por ali entrasse nunca mais havia de sair. Acreditava que medraria mais o seu corpo e a sua alma. Acreditava que dentro dele se construía, assim, outro mundo que pouco a pouco cresceria e um dia havia de vomitar. Acreditava, do mesmo modo, que as pessoas que o rodeassem o pudessem perceber mais e melhor ao terem ali o seu mundo, ao dispor dos seus olhos. Deixaria de ser palavras, às vezes mal entendidas, para ser coisa, matéria. Tocável e exposto a outros sentidos: ao olfato, ao tato, ao paladar e à visão. Nesse dia, não adormeceria mais (de ninguém).






domingo, janeiro 27

Do processo

hoje pediram-me que voltasse a escrever, quase como se importasse aos outros a forma como vejo e sinto o mundo. como se fosse eu cada um dos seus sentidos ou as minhas palavras cada sensação que lhes fica presa em qualquer parte do corpo, perdida, e não conhece mundo. perguntam-me do processo: calo-me, engulo as palavras que vou ouvindo, as que posso, e armazeno-as em cada um dos órgãos que, vazios, as hão-de transbordar, com o tempo, para o meu sangue, líquidas. depois, percorrido o corpo, chegarão aos pulmões e expiradas, entre cordas, virarão sons de um monólogo que as minhas mãos hão-de transcrever. haverá sempre palavras que se perdem, decantadas; outras que, indigestas, o corpo desaproveitará em... 
                             @killjoy-doll

domingo, abril 22

in memoriam...


Acredito que envelhecemos sempre que perdemos alguém, como se fossemos um puzzle e cada peça perdida fosse uma pessoa que amamos e um ano menos da nossa vida.
Uma perda será menos uma arfada de ar que respiramos, menos um latido ou um êmbolo numa qualquer artéria que, outrora, havia de alimentar o nosso corpo e que, agora, o deixa secar, pouco a pouco. Com o tempo, devimos pele e osso. Depois osso. E pó. Terra.

quinta-feira, março 29

Dos falares de um povo...

A propósito de língua, hoje decidi ir buscar a uma velha gaveta um pequeno texto que escrevi há uns anos...

O carácter mais íntimo de cada povo, a sua alma profunda, está sobretudo na sua língua.

Jules Michelet (1789-1874), historiador francês

Num período que se adivinha já bem sucedido com os milhares de pessoas que nos visitam, algumas das quais assiduamente; parece-me que deixar-lhes um tributo é o merecido prémio. Não vou tratá-las como turistas ou estrangeiros; afinal, creio que, a partir do momento que pisam esta terra, são já conterrâneas. Por isso, vejo já em ti, que me lês, um novo Homem desde o instante em que pisaste este solo que te era estranho. E, agora, que te sentes adaptado, renovado e receptivo a uma cultura peculiar, não te vou traçar um roteiro para que descubras as construções, os monumentos, as paisagens, que são belas e, estou certo que, se ainda o não fizeste, algum dia o farás: hoje, amanhã ou quando nos revisitares novamente. Não esperaremos muito tempo sem ti. Voltarás.

A obra de arte que te quero mostrar, que não é menos bela do que as anteriores, está em qualquer conversa que tenhas com um transmontano. Cada um de nós, sem saber, pode mostrar-ta. Encontrá-la-ás mais viva num velhinho, esse mesmo que está à tua frente; ou naquela velhinha que está na bancada com aquele sorriso característico de boas-vindas (e que alguns os acusam de falar mal, porque o português correcto é o que se fala em... onde tu acabas de pensar, respeito a tua opinião; mas preciso da tua sensibilidade para que possas apreciar este nosso falar) enquanto lês este boletim que decidiste recolher ou alguém to deu e folheaste-o por curiosidade. Vai lá, aborda-os e diz-lhes que te contem uma história, que te falem do fumeiro que aqui se come ou do bom vinho que se bebe. Escuta-os com atenção.

Se não foste capaz, tens outra alternativa: apura a tua audição e, enquanto passeias, repara nas palavras que se perdem entre a multidão, em conversas alheias (é-te permitido ouvi-las, a intenção é boa!). Até podes fechar os olhos, se quiseres. Escuta-as. Tchuva, sole, fai(faz), non, tchouriço, (interjeição que manifesta espanto, surpresa ou desacordo)… e tantas outras maravilhas podes escutar. Algumas palavras podes conhecer, outras haverá que possas estranhar, mas acredita que todas elas pertencem à língua que tu falas, a portuguesa. Não pertencemos todos à mesma espécie, independentemente da cor dos olhos, do cabelo ou do tom de pele? Pois bem, também a língua, internamente, diverge de forma mais ou menos evidente quanto ao vocabulário, pronúncia e mesmo gramática. Não serás indiferente ao “s” que pronuncias (permite-me dar-lhe o nome de sibilante pré-dorsodental surda) e ao destas gentes (sibilante ápico-alveolar surda), ao teu “ch” (fricativa palatal) e ao outro que escutas (“tch” – africada palatal), ou mesmo aos ditongos ou à neutralização da oposição entre o “v” e “b”, que, independentemente da grafia, se vocalizam da mesma forma. Cada um destes traços tornam-nos únicos e deliciam-nos. Também aos outros dialectos mais ou menos setentrionais, mais ou menos centro-meridionais que caracterizam o norte, o sul, o este e o oeste de Portugal.

Não alimentemos, portanto, a falsa ideia de “falar melhor” e “falar pior”, para podermos manter um património que se confunde com as nossas origens: o linguístico. Não confundamos o que se pode considerar a norma e o que é normal, palavras bem distintas. Diríamos que a norma equivaleria a uma língua-padrão, falada por um grupo mais ou menos culto, situada na região Lisboa-Coimbra, que não será nem mais nem menos normal que a língua que escutas nesta terra que pisas.

Não exijo mais o teu tempo, tão somente te peço que pares um momento e escutes: é o nosso falar, que se extingue já como uma chama, mas ainda aquece o coração de quem o escuta. Aquece-te.

Novembro 2007


terça-feira, março 20

Somos... e sabemos...


Um destes dias, quando prometia a uma amiga que havia de escrever sobre o festival, não o fiz de forma consciente...
Sempre ficamos atordoados quando temos a possibilidade de partilharmos um espaço com vozes que, por algum motivo, ecoam cá e lá fora... e cá dentro.Não é difícil perceber, para quem se perde facilmente nas palavras dos outros, escritas ou faladas,que há leitores tresmalhados como eu. Perdem-se, assim, sem mais...
Mas, mesmo perdido, poderia dizer que me alimentaram a tal "tensão" geradora (nomeada por Fernando Pinto do Amaral numa das suas sempre pacíficas intervenções), que me fez esboçar este texto que, por falta de tempo, guardei na gaveta à espera de um dia de sol e silêncio.
Hoje foi o dia. Lá fora, a tarde amena convidou-me para um café na esplanada de quase sempre.
Reli o pouco que escrevera:
Éramos pobres, violentos, piegas e originais... e não sabíamos! E agora? Continuamos pobres, violentos, piegas e originais, mas mais conscientes? Não creio! Aumentámos a nossa pobreza, a nossa violência, com mais pieguice, menos originalidade, e excessiva inconsciência. E não me parece que esteja a ser exagerado!
Mas nunca admitirei que somos naturalmente pobres. E se o somos, é porque, naturalmente, nos rendemos a um comodismo doentio e epidémico, acompanhado de uma inércia ridícula, que ameaça tornar-se uma característica genética, nossa, portuguesa! Cuidado: os trapos que vestimos e fazem de nós pobres podem virar vísceras!
Entretanto, o sol escondeu-se e acinzentou-me o céu e o papel. E recolhi-me.




quinta-feira, julho 28

ruas na palma da mão

tenho-me feito viajante, nestas ruas que inscrevo na minha palma da mão. hei-de um dia dizer que as conheço assim, de tão bem, como se das minhas mãos se tratasse.

terça-feira, julho 19

d'as noites de teresa klut

ontem, um velho amigo apresentou-me uma mulher sem tempo, que tecia um manto de fragilidades, escrevia ela. perguntava-me sobre o que me diziam as suas mãos e contava-me de como o tempo se esquecera dela e, assim, virara penélope sem ulisses. ela era aquilo, e não lhe cabiam na boca mais palavras que a noite.

domingo, julho 17

filhos do mundo

sou desses... desses que se apaixonam por terras estranhas e que as entranham... desses que, órfãos nos quilómetros e nas horas, viram filhos de outros lugares e ganham, assim, mais irmãos... desses que, aversos a solidões, reencontram amigos e fortalecem velhos laços... desses que, com tanto, viram tão pouco e aprenderam a ser ainda mais felizes... sou desses, sou desses filhos do mundo.

sábado, maio 8

Restart...

Hoje regressei ao ténues fronteiras, um ano e muitos meses depois... porque não é fácil gastar um sábado nublado, fechei-me no meu quarto a ouvir alguma da música que ainda me lembra a vida que deixei na província transmontana e quis reler o que outros ares me inspiraram.