terça-feira, dezembro 29

2.[o silêncio]

[o silêncio]


inquietava-a aquele silêncio. sempre se vira rodeada de pessoas e, agora, ao querer afastar-se de tudo e de todos, sentia-se a mulher mais triste do mundo. talvez fosse a tristeza o início deste seu novo mundo. talvez, à semelhança de todos os escritores que são dados à solidão para que se lhe arranque dos dedos a alma das coisas, precisasse desse momento de tristeza para encontrar a sua própria alma. sentia-se demasiado só-corpo. precisava conseguir ver-se além do espelho que a ajudava a maquilhar-se cada manhã. queria ser autêntica e desmascarada, para si. obrigar-se-ia a pensar-se, a si e ao mundo que deixava para trás, e a encontrar-se nesse outro eu que era desconhecido e que lhe gerava um certo desconforto. ser eu desconcerta-me. tal como o sentar-me numa cadeira incómoda. como se procurasse uma postura mais confortável e anatomicamente mais correta, era a oportunidade para ser outra, mais cómoda para si - mesmo não sabendo quem era naquele exato momento. era mulher dada a coisas exatas, dizia. hei-de sempre recortar-me de tudo o que não me faz falta e aflige, e fujo, colo-me noutra folha e viro a página. despropósitos, pensava quem a ouvia a querer desprender-se assim de tudo o que era: há roupas que vestimos tantas vezes que, depois de um tempo, hão-de substituir-nos a pele. e, a querer arrancá-la, havemos de mostrar as nossas entranhas. e é algo tão feio de ser ver. fingiu não ouvir e aproveitou para encher o copo um pouco mais. mais vinho? alguém quer mais vinho? sentia-se mrs dalloway numa das suas festas. a festa da despedida. e lá fora era inverno.


domingo, dezembro 27

1.[próxima estação: o inverno]

[o inverno]


olhava para o relógio,  sempre a pensar que a distância entre os ponteiros havia de ser proporcional aos muitos quilómetros que o separavam do seu destino.  por mais que se esforçasse em escondê-lo dos seus olhos, procurando entretê-los com as paisagens projetadas nas janelas do comboio, poucos minutos depois estava a olhá-lo disfarçadamente, como se pudesse fazê-lo às escondidas de si próprio. sentia desdobrar-se, às vezes. um dos seus passatempos preferidos era imaginar-se o outro, pensar-se noutro espaço, noutro tempo, como se pudesse geminar-se com outro espaço e outro tempo. não sabia ao certo, mas havia dias em que o sentir-se anacrónico era doença. sentia que o sedentarismo mental e social à sua volta, e que o perturbava, lhe entrava nas ossadas como a humidade de inverno que pode virar pneumonia. talvez fosse essa a explicação para as suas viagens: se não podia meter-se num carro ou num avião, um barco que fosse, teria de adentrar-se por um livro. era mesmo uma questão de saúde, viajar. pensar que, ultimamente, sempre que se falava de saúde, haviam de referir um mal-estar físico, uma dor qualquer no corpo que tolhe um movimento, mas esqueciam-se que havia uma saúde mental e social, descuidada. essa era uma aprendizagem antiga, ou não o tivesse o professor de saúde de nono ano obrigado a decorar a definição de saúde como o bem-estar biopsicossocial. na altura parecera-lhe uma definição pouco adequada, até porque a mãe só o acompanhava ao centro de saúde quando uma virose resistia às mezinhas caseiras e para as análises de rotina, sempre anunciadas de véspera, não fosse o sangue acusar comportamentos menos saudáveis. anos mais tarde, talvez uns dois ou três, ao obrigar-se a compreender aquela definição que parecia surgir-lhe sempre que via ou ouvia a palavra saúde, pareceu-lhe ter encontrado ali o lema para uma vida quase eterna e sem maleitas. cuidar do seu corpo, capaz de pegar num livro que fosse mais pesado, para, depois, poder passear-se entre novas pessoas. inquietou-se alguém ao seu lado. próxima estação, anunciava, é o inverno. e o relógio coincidia os três ponteiros.