terça-feira, dezembro 29

2.[o silêncio]

[o silêncio]


inquietava-a aquele silêncio. sempre se vira rodeada de pessoas e, agora, ao querer afastar-se de tudo e de todos, sentia-se a mulher mais triste do mundo. talvez fosse a tristeza o início deste seu novo mundo. talvez, à semelhança de todos os escritores que são dados à solidão para que se lhe arranque dos dedos a alma das coisas, precisasse desse momento de tristeza para encontrar a sua própria alma. sentia-se demasiado só-corpo. precisava conseguir ver-se além do espelho que a ajudava a maquilhar-se cada manhã. queria ser autêntica e desmascarada, para si. obrigar-se-ia a pensar-se, a si e ao mundo que deixava para trás, e a encontrar-se nesse outro eu que era desconhecido e que lhe gerava um certo desconforto. ser eu desconcerta-me. tal como o sentar-me numa cadeira incómoda. como se procurasse uma postura mais confortável e anatomicamente mais correta, era a oportunidade para ser outra, mais cómoda para si - mesmo não sabendo quem era naquele exato momento. era mulher dada a coisas exatas, dizia. hei-de sempre recortar-me de tudo o que não me faz falta e aflige, e fujo, colo-me noutra folha e viro a página. despropósitos, pensava quem a ouvia a querer desprender-se assim de tudo o que era: há roupas que vestimos tantas vezes que, depois de um tempo, hão-de substituir-nos a pele. e, a querer arrancá-la, havemos de mostrar as nossas entranhas. e é algo tão feio de ser ver. fingiu não ouvir e aproveitou para encher o copo um pouco mais. mais vinho? alguém quer mais vinho? sentia-se mrs dalloway numa das suas festas. a festa da despedida. e lá fora era inverno.